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«A vida artística é uma montanha-russa»

Com décadas de carreira, Heitor Lourenço fala sem romantismos sobre o lado invisível da profissão.

homem calvo de camisa branca e casaco preto, frente a uma plateia de teatro

Num meio onde a intensidade é regra e a instabilidade faz parte do contrato não escrito, falar de saúde pode parecer secundário. Mas para Heitor Lourenço, não é. Ao refletir sobre o que diria a quem começa agora na representação, o ator é claro: antes da técnica, antes da ambição, antes do palco, é preciso consciência.  

Muitos jovens aproximam-se da representação movidos pela visibilidade, pelo aplauso, pelo reconhecimento rápido. «Há quem entre no meio artístico só com a perspetiva do aplauso, da fama e do reconhecimento», observa. O problema é que a realidade raramente corresponde a essa expectativa: «Por cada mil atores, há um que é conhecido».

Quando a motivação central é externa, o risco é elevado. A frustração pode instalar-se cedo e com violência. Quando essa expectativa não se concretiza, «isso cria uma grande frustração, um grande desequilíbrio».

Mas há uma segunda dimensão, mais silenciosa e igualmente exigente: a própria matéria da profissão. Para Heitor Lourenço, representar implica trabalhar com emoções intensas, mergulhar em conflitos, viver, ainda que simbolicamente, experiências limite. «Houve métodos de interpretação que, quando mal compreendidos, levaram atores a uma entrega desgovernada, confundindo as suas próprias vivências com as das personagens».

O sistema de Konstantin Stanislavski, explica o ator, «é extraordinário» na sua essência. Mas algumas leituras posteriores, nomeadamente abordagens associadas ao Actor’s Studio, fundado por Lee Strasberg, incentivaram uma utilização muito crua da experiência pessoal como matéria-prima cénica. Em intérpretes emocionalmente mais vulneráveis, essa fusão entre vida e personagem pode ser perigosa. «Trabalhar emoções profundas sem ferramentas sólidas pode criar desequilíbrios sérios», avisa.

A terceira dimensão é talvez a mais estrutural: aceitar a natureza instável da profissão. Heitor Lourenço é claro: «A vida artística é uma montanha-russa». Há momentos de intensa exposição e trabalho contínuo; outros de silêncio e invisibilidade. E essa alternância não é exceção, é regra. «Se uma pessoa não criar uma carapaça para a instabilidade nesta profissão, é muito complicado».