«Dar felicidade aos outros dá muita saúde»
Aos 68 anos, o ator vive com um equilíbrio pouco óbvio, feito de disciplina e indulgência em partes iguais.
Miguel Guilherme
Quatro décadas de palco e de ecrã não deixaram Miguel Guilherme mais parecido com uma máquina, pelo contrário. Aos 68 anos, vive com um equilíbrio pouco óbvio, feito de disciplina e indulgência em partes iguais, que sustenta a sua ideia mais simples e mais radical: a de que a felicidade, no fundo, é a única saúde que verdadeiramente importa.
A sua profissão é saudável?
Não. Nada saudável. É tudo menos saudável. Pode ser do ritmo... Mas depende do que nós consideramos saudável, não m? Poucas coisas na vida são saudáveis, no sentido de absoluta paz de espírito, de absoluta serenidade. Quer dizer, é uma utopia. Sou muito feliz na minha profissão, mas não sei se é saudável. Também não me interessa muito. Interessa-me que, se eu sou feliz a fazê-la, acaba por ser saudável para mim.
Psicologicamente, às vezes é muito desgastante. Fisicamente também. E o que é bom num ator é que ele não precisa de ser uma máquina, não precisa de ser um Schwarzenegger. Porque um ator, quanto mais humano for, melhor. Pode haver atores gordos, magros, mais feios, mais bonitos, porque tudo isso faz parte da condição humana.
Com uma carreira tão longa, que mecanismos tem para continuar a gostar do que faz e para se manter motivado?
Há momentos em que não me apetece nada, mas acho que isso acontece em todas as profissões, não m? Sobretudo quando algo nos corre mal. Nessas situações, tendemos a dramatizar, a catastrofizar, a dizer que é tudo uma porcaria. Acho que é fundamental, de vez em quando, olhar para a vida, olhar para os outros, olhar para si próprio, descansar. Isso ajuda depois a voltar a ter entusiasmo. Os ciclos da vida também vão fazendo com que a pessoa seja um ator diferente conforme a idade e a experiência que se tem.
E que tipo de personagens é que mais gosta de representar? As mais energéticas? As mais melancólicas?
Tem mais a ver com o argumento, ou com a peça, ou com quem estou a trabalhar. Tudo isso influencia. Por vezes acontece uma pessoa pensar «isto vai ser incrível» e não é. Trata-se de uma atividade que envolve muita gente; é um trabalho de equipa.
Ao longo dos anos, a saúde sempre foi uma preocupação?
Nunca tive grandes situações. Tenho problemas de coluna, de costas, e agora estou bastante melhor, mas a partir dos meus 43 anos foi um inferno. Com o passar do tempo, fazendo pilates, nadando, caminhando, as coisas ficaram um bocadinho melhores. Faço pilates há quatro anos e a minha vida mudou em termos de dores nas costas. Praticamente desapareceram.
Como surgiu o pilates?
Quando o pilates apareceu em Portugal, em 1996, eu já tinha experimentado. Em 2022, tive um problema num ombro e fiz dois meses e meio de fisioterapia intensa, depois ainda fiz fisioterapia e pilates ao mesmo tempo, e passei para o pilates, com a mesma pessoa, mas agora muito mais a sério. É fundamental fazer atividade física, para qualquer pessoa.
Tem outra atividade física além do pilates?
Caminho bastante. Ando muito, todos os dias, durante uma hora a hora e meia, logo de manhãzinha. Faço um bocadinho de musculação, no pilates e em casa. E acho que chega. Depois, a atividade teatral também implica muita atividade física.
Mas o pilates modificou-me de forma muito prática. Eu estava meia hora em pé e tinha dores excruciantes nas costas. Depois comecei a fazer pilates e toda essa zona ficou fortificada.
E a alimentação? Segue alguma dieta?
Não. Tenho cuidado, mas sou muito guloso. Adoro doces. O que me custa é não comer doces.
Lembro-me de que, às vezes, comia a sopa para não engordar e não comia o prato principal. Ia direto para a sobremesa. É claro que muito açúcar é péssimo, tira a energia. Mas, de vez em quando... senão a pessoa é muito saudável, tem tudo, mas fica infeliz. Temos de cometer alguns excessos. A aventura alimentar também é importante.
Recomendo às pessoas terem cuidado com a alimentação, mas sobretudo recomendo mexerem-se, andarem, não estarem sentadas, sobretudo pessoas mais velhas, da minha idade. E, de vez em quando, por amor de Deus, um bom leite-creme, queimadinho, para alegrar o dia.
Tem algum mecanismo para se manter feliz e ativo mentalmente?
Meditação não faço. Tentei e não resultou. A culpa não é da meditação, é minha. Caminhar é uma espécie de meditação, para mim. Se eu estiver a andar e tentar esvaziar a cabeça, usando a respiração, aquilo dá um certo prazer, uma certa paz.
E leio muito. É uma das coisas que mais adoro. Leio um bocadinho de tudo. Muita ficção, muita história. Ler é maravilhoso. É um prazer brutal. Há momentos em que leio muito, muito, muito, outros em que leio um bocadinho menos. Mas estou sempre a ler por prazer, sem contar com o que tenho de ler para a profissão.
Como é que lida com os anos a passar?
Mal! Não, estou a brincar. Às vezes fico perplexo, tipo: já estou aqui, já cheguei aqui?! Por um lado, é bom, mas a ideia do envelhecimento traz sempre uns fantasmas um bocadinho inquietantes. Mas há que lidar com eles. Não aprendi a fazê-lo. Tento, tento…
Tem algum conselho para alguém que quer ser mais saudável ou aproveitar melhor a vida?
Depende muito da idade das pessoas. As coisas estão sobretudo ligadas à idade. Aquilo que fazemos para preservar a saúde está muito ligado à idade de cada um. O ideal não é só uma questão de saúde física, mas também de saúde mental, no sentido de tentar ser feliz e que os outros também o sejam. Não é só não prejudicar os outros, é dar felicidade aos outros. Acho que isso dá muita saúde.
Que objetivos tem para o futuro?
Os meus objetivos são continuar a representar, continuar a viver de uma forma o mais descontraída possível, olhar para a cidade, ser um bom cidadão, quer politicamente, quer eticamente. E ver se ainda faço duas ou três coisas boas, do meu ponto de vista.