Ator e pai atento, Jorge Corrula mostra-nos como o corpo e a mente caminham juntos e como a verdadeira saúde se constrói no quotidiano.
Entre maratonas e a indisciplina assumida, o ator olha para a saúde como um território vivo, feito de escolhas, ajustes e consciência. Ator, pai atento e defensor da prevenção como caminho para uma vida mais longa e com qualidade, mostra como o corpo e a mente caminham juntos, como o equilíbrio não é um estado permanente e como a verdadeira saúde se constrói no quotidiano.
É uma relação de amor-ódio. Já tive fases em que praticava desporto quase diariamente e cheguei mesmo a fazer duas maratonas. Mas também atravessei períodos, muitas vezes por lesões, em que passei meses sem fazer rigorosamente nenhuma atividade física.
São momentos de grande angústia e, às vezes, até de algum drama, com muito choro [risos]. Falando mais a sério, questiono-me sempre porque é que estive tanto tempo parado. Quando falamos de saúde, falamos também de saúde mental e, para mim, o desporto funciona quase como uma forma de poupar dinheiro no psicólogo.
Depende muito dos períodos de trabalho. Quando tenho projetos muito intensos, nem sempre consigo manter uma rotina desportiva. Mas, sempre que posso, para mim trabalhar também significa estar em movimento: jogar futebol, andar de bicicleta, fazer BTT ou atletismo. Se não estiver fisicamente ativo, sinto que não estou mentalmente ativo. Para ter a mente “afinada”, o corpo tem de estar “sintonizado”. Não consigo dissociar uma coisa da outra.
É uma certa loucura! Durante a prova perguntamo-nos várias vezes porque é que nos metemos naquilo e, assim que terminamos, queremos logo fazer outra. Acho que isto é comum a todos os maratonistas. No meu caso, foi sobretudo um desafio pessoal, mas também uma paixão alimentada pela história: cresci a ver os Jogos Olímpicos, a acompanhar figuras como o Carlos Lopes e a Rosa Mota, e sempre me fascinou a dimensão mitológica da maratona, que é considerada a prova-rainha do atletismo.
Além disso, houve uma componente turística muito forte. A primeira maratona que fiz foi a de Nova Iorque, em 2017. A segunda foi a de Londres. Um sonho que ainda tenho é fazer a maratona de Tóquio, precisamente por nunca ter visitado o Japão.
Para mim, o desporto tem de estar integrado no quotidiano. Não faço exercício apenas para estar em forma; gosto que seja dinâmico e vivido em contexto. Não sou pessoa de ginásio. Curiosamente, este ano inscrevi-me por causa de um trabalho, mas fui lá três vezes… e paguei a anuidade inteira.
A rotina não se encaixa na minha vida. É quase como entrar numa realidade paralela, um espaço desligado do quotidiano, dedicado apenas a trabalhar músculos. Para mim, isso é sobretudo físico e pouco mental. Nunca fui pessoa de ginásio, porque sinto que é muito focado na força e menos na experiência global. Percebo perfeitamente quem o faça por motivos de reabilitação ou fisioterapia, mas fazer ginásio apenas para ganhar músculo nunca fez parte do meu estilo de vida.
Pela boca [risos]! Tenho cuidado, mas sou bastante irregular. Tanto sou capaz de jantar um cozido à portuguesa como não jantar de todo. Gosto muito de comer e adoro a cozinha portuguesa, acho que é das mais ricas do mundo, mas reconheço que oscilo muito entre períodos de maior disciplina e outros de maior desleixo.
Sinto, mas não sou a melhor pessoa para falar disso, porque não faço muitas concessões a essa pressão. Feliz ou infelizmente, os homens estão mais protegidos nesse aspeto. As mulheres continuam a sentir muito mais pressão e acabam por ceder mais facilmente. Acho que devemos aprender a conviver com o envelhecimento, aceitá-lo com menos medo e menos trauma.
Podemos cuidar de nós, é claro, mas devemos gostar de quem somos. Quando se recorre a alterações estéticas para tentar negar aquilo que é natural, parece-me que há qualquer coisa interior que não está bem resolvida. Todos envelhecemos e um dia todos vamos morrer. Negar isso não me parece saudável.
Estive a consultar o meu boletim de vacinas e, aparentemente, tenho vacinas em atraso desde 1978. Quero acreditar que seja um erro informático e não propriamente meu; gostamos sempre de culpar o Estado. Mas a verdade é que já está mais do que na altura de fazer um rastreio. Todos os anos digo isso e a verdade é que há algum tempo que não visito a minha médica de família.
Não pode ser algo apenas individual, porque tenho duas filhas menores. Felizmente, ao nível da saúde, está tudo em dia com elas: vacinação, acompanhamento pediátrico, essas rotinas são cumpridas. As minhas filhas praticam bastante desporto, tanto na escola como extracurricular. A mais velha joga basquetebol e já é federada. Fico muito feliz por ver o crescimento do desporto feminino em Portugal. Ainda não existe verdadeira paridade, mas houve uma evolução muito positiva nos últimos anos e acredito que continuará. Como pai de duas jovens mulheres, assumo-me claramente como feminista e defensor desse caminho.
Quem sabe. Se eu conseguir acompanhá-las, ótimo, mas espero até que não consiga, porque isso significará que me ultrapassaram.
Sem dúvida. Em muitos países desenvolvidos, o desporto faz parte da cultura de trabalho e da rotina diária, precisamente porque já perceberam que é uma forma de prevenção e de redução de custos futuros em saúde. Em Portugal ainda não estamos totalmente nesse caminho, mas é inevitável: a população está a envelhecer e, se não investirmos em prevenção, pagaremos essa fatura mais tarde. O desporto e a cultura são fundamentais para termos melhor qualidade de vida e menos despesa em cuidados de saúde.
Envelhecer bem. Parece simples, mas não m. Hoje em dia, o envelhecimento é muitas vezes associado à decadência, e eu acredito precisamente no contrário. Se tivermos saúde, o envelhecimento pode significar qualidade de vida. Gostava muito de contrariar a ideia de que envelhecer em Portugal é sinónimo de perda de autonomia e bem-estar.
Admiro muito quem faz direção de atores e encenação. Gostava de explorar essa vertente; não necessariamente realizar ou encenar, mas trabalhar mais diretamente na direção artística e no acompanhamento de atores. É um território que me desperta muita curiosidade.