Cinco infeções por COVID-19 impedem-na de seguir a sua verdadeira vocação, mas Dora Sargento, médica internista, faria tudo de novo.
Médica internista, Dora Sargento sentiu-se realizada numa urgência hospitalar durante cerca de 25 anos. A pandemia e cinco infeções por COVID-19 afastaram-na para sempre daquele local. Hoje, com COVID longa, sabe que faria tudo de novo.
A urgência hospitalar foi a vida e a paixão de Dora Sargento durante mais de duas décadas. Médica internista, fazia bancos e noites com uma entrega tal que até os colegas comentavam. «Os meus colegas diziam muitas vezes que eu era um bocadinho doida», conta Dora, recordando a certeza que tinha de que só abandonaria o trabalho noturno quando se reformasse. «Sempre gostei do serviço de urgência, desta azáfama, deste ritmo de diagnóstico, de ver os doentes entrar, diagnosticar, tratar, medicar e fazer a diferença», continua, para desabafar: «Sempre fui apaixonada pelo serviço de urgência... era tudo, era tudo para mim».
Durante a pandemia de COVID-19, agravaram-se porque havia poucos médicos». Praticamente não via a família. À porta do serviço de urgência, onde se concentravam alguns dos casos mais graves de COVID-19, a vontade de salvar uma vida pesava mais do que a preocupação com a sua própria segurança. Olhando para trás, afirma: «tenho consciência de que errei muitas vezes, de que pensei mais no doente do que em mim», mas com a certeza de que na sua profissão «não existe o risco zero».
Desses tempos, duas memórias não a largam. A primeira é a de uma doente internada, aparentemente sem risco. «Eu tinha-a observado, na cama seis, nunca mais me esqueço», lembra. «No final do turno dissemos: esta doente tem COVID. E tinha». Oito dias depois, Dora estava infetada. O outro caso é o de uma jovem em insuficiência respiratória. Dora não tinha o equipamento de proteção completo, mas, por não haver outro médico disponível, ventilou a doente. «Não olhei para trás», comenta, «não sou nenhuma super-heroína, mas fiquei tranquila com o que fiz».
No total, foi infetada cinco vezes com COVID-19. A primeira infeção aconteceu em janeiro de 2021, ainda não tinha sido vacinada. Estava a aguardar o intervalo de um mês após ter tomado a vacina da gripe – de acordo com o protocolo à época. Nessa infeção inicial, que descreve como tendo sido «uma forma muito exuberante», ficou quase um mês em casa. Decidiu tratar-se a si própria. «Sendo médica, fiz tudo aquilo que faria se estivesse internada». Sentiu dificuldades respiratórias, muito cansaço, muitas dores de cabeça. Ao oitavo dia da infeção apareceu-lhe uma conjuntivite viral, ficou com «os olhos completamente vermelhos bilateralmente». Ligou a um colega de oftalmologia, fez medicação, e parecia ter passado.
Nas infeções seguintes repetiram-se o cansaço, as dores de cabeça muito grandes, a dificuldade respiratória. Entretanto, começou a «sentir uma dificuldade visual muito progressiva», que atribuiu à idade, sem nunca procurar ajuda. Em 2023, a quinta infeção trouxe envolvimento cardíaco: miocardite com pericardite. Dora acabaria por ficar em casa durante um ano e meio com insuficiência cardíaca, derrame pericárdico, insuficiência respiratória e «um cansaço que não é explicável».
Uma consulta de oftalmologia, marcada quase por acaso, revelou uma lesão da córnea (a estrutura transparente na parte anterior do olho, essencial para a focagem). Na altura «tinha uma destruição de 70% da córnea à esquerda; neste momento, está quase em 100%, não vejo nada desse olho». A causa? «Destruição progressiva por um processo inflamatório provocado pela COVID-19», sem tratamento possível. A todas as consequências que a infeção deixou, somou-se depois a síndrome de Sjögren, uma doença autoimune crónica que provoca secura severa nas glândulas responsáveis pela produção de lágrimas e saliva.
Um atestado médico de incapacidade multiuso fixou a sua incapacidade em 91%, de forma vitalícia. «Quando eu vi os 91% fiquei... Saí de lá a chorar», descreve. Dora continua a trabalhar, mas a incapacidade impede-a de regressar ao que mais gosta: as urgências ou mesmo o contacto direto com os doentes. Como se recusa a reformar-se, lidera agora um departamento não clínico do mesmo hospital onde trabalha há quase 30 anos.
O seu dia a dia é uma negociação que quem a vê dificilmente imagina. «Há dias em que é insuportável levantar-me, tomar banho, vestir-me, secar o cabelo». Todos os dias vai buscar a filha à escola, senta-se no sofá e “apaga”. Não por causa do sono – «eu não tenho sono; não tenho é energia, não tenho força. Isto é muito difícil de explicar porque quem olha para nós não vê uma pessoa com aspeto de doente». Dora desabafa: «m muito doloroso, muito difícil». No entanto, resiste. «Arranjo-me, maquilho-me – ninguém tem de saber o que está do outro lado». Pode trabalhar a partir de casa, mas é no hospital que prefere estar.
Ao contrário de muitos doentes com COVID longa (condição marcada pela persistência ou pelo surgimento de sintomas após a infeção por SARS-CoV-2, durante pelo menos dois meses), no seu caso existem marcas: «uma cicatriz no olho, no coração, a autoimunidade», explica.
A COVID longa nem sempre deixa marcadores biológicos claros e continua a ser, em muitos casos, uma condição difícil de validar clinicamente. Afeta com frequência mulheres em idade adulta, muitas vezes erradamente diagnosticadas com depressão ou ansiedade.
Para oferecer uma resposta mais adequada a estes doentes, Dora propôs ao Conselho de Administração do hospital a criação de uma consulta especializada, sugestão já acolhida.
A médica é também consultora clínica da Aliança Millions Missing, uma associação dedicada a dar voz e a conseguir o reconhecimento necessário e cuidados para pessoas com encefalomielite miálgica / síndrome da fadiga crónica, COVID longa e outras síndromes pós-infeciosas de instalação aguda.
«Não me arrependo de nada do que fiz, faria tudo de novo», afirma com a máxima tranquilidade sobre as decisões que tomou. O que também não passa é o âmago da sua vocação. «Tenho uma saudade imensa de interagir com doentes, estar na enfermaria, fazer diagnósticos e bancos de urgência», desabafa. Uma perda que sabe ser definitiva. «E acho que isso vai ficar para sempre, porque fiquei impedida de o fazer de uma forma um bocadinho cruel», acrescenta num raro lamento.
Consciente do preço que pagou pelo seu altruísmo, sabe que tem um «“fardo” para suportar». Mais: «sei que as consequências vão vir e sei que a parte cardíaca está pior». Já há muito percebeu – e escolheu – a vida que quer viver. «Ou me deito no chão e me esqueço, ou continuo a reagir», afirma. «Optei por reagir. Porque estive um ano e meio fechada em casa e não quero voltar a ficar».