Jorge Corrula, quando questionado se acha a sua profissão saudável, diz-nos que há profissões que expõem o corpo, outras testam a mente, e há aquelas que colocam em palco, ao mesmo tempo, a identidade.
Para Jorge Corrula, ser ator é habitar esse território de permanente exposição: um lugar onde a exigência emocional, física e criativa se cruza diariamente, e onde o equilíbrio não é um destino alcançado, mas um exercício contínuo de escuta, adaptação e ajuste.
Quando questionado sobre se considera a sua profissão saudável, a resposta surge longe de certezas. Pelo contrário, reflete a consciência de que a saúde não reside apenas no contexto profissional, mas na forma como cada pessoa constrói e cuida da relação que mantém com o seu trabalho.
«Cabe a cada um de nós, em qualquer profissão, tornar essa relação saudável. Pode haver relações tóxicas em qualquer área».
O seu percurso é feito de ciclos, de altos e baixos assumidos com naturalidade. Há fases de maior intensidade laboral em que a gestão pessoal se torna mais desafiante e o equilíbrio pode vacilar, seja na alimentação, no descanso ou na prática regular de exercício físico. Para o ator, porém, existem três pilares que precisam de caminhar em harmonia para sustentar o bem-estar: «quando digo três coisas, falo de trabalho, alimentação e desporto. Essas três questões são fundamentais para conseguires estar saudável».
Ainda assim, recusa a ideia de uma saúde perfeita, linear ou definitiva. Prefere encará-la como um processo vivo, em permanente construção, feito de tentativas, reajustes e reaprendizagens. «O ser saudável não existe. O estar saudável é uma busca constante».
Assume-se, com frontalidade, como alguém irregular e, por vezes, indisciplinado. No entanto, a experiência profissional e a paternidade trouxeram-lhe uma maior consciência das próprias fragilidades e, sobretudo, das áreas que precisa de trabalhar para otimizar o seu rendimento e qualidade de vida.
«À medida que vou acumulando anos de trabalho e conhecendo as minhas dificuldades, percebo melhor aquilo que preciso de ajustar para conseguir conjugar estes três fatores».
Para Jorge Corrula, o verdadeiro desempenho não se mede apenas pelo resultado final, já que esse estará sempre sujeito ao olhar do público, da crítica e das circunstâncias externas, mas pela coerência do processo. Quando corpo, rotina e trabalho caminham em sintonia, sente-se mais disponível para responder às exigências da profissão com clareza e consistência.
Essa relação com a avaliação externa conduz inevitavelmente à forma como lida com a crítica. A resposta é direta: «Sou pessimista por natureza. Nunca consigo estar completamente satisfeito com o meu trabalho. Sou muito autocrítico».
Mas essa insatisfação não é um obstáculo, mas sim um impulso. Para o ator, a crítica, e até o erro, são ferramentas essenciais de crescimento, motores silenciosos de evolução pessoal e artística.
«Quando tudo é unanimemente positivo, não há fator de crescimento. É na crítica e no erro que conseguimos evoluir». Esta postura exige uma vigilância constante sobre o próprio percurso, um saudável “pé atrás” que impede a acomodação e mantém viva a vontade de melhorar.
Quando transpõe esta lógica para o universo do desporto e da saúde física, reconhece diferenças claras. O corpo responde de forma mais previsível, quase matemática: treinar melhor e alimentar-se com mais consciência gera, tendencialmente, melhores resultados. «No desporto, o corpo é mais responsivo, mais matemático. Se treinas mais e comes melhor, tens naturalmente melhor rendimento».
Já no trabalho artístico, o esforço não garante, por si só, excelência. O estudo, a preparação e a dedicação aumentam a probabilidade de sucesso, mas não anulam a imprevisibilidade própria da criação, esse território onde a intuição, o acaso e a emoção também contam.
Essa consciência de que nem tudo está sob controlo reforça a importância de cuidar daquilo que depende de cada um: rotinas, disciplina, escuta interior e um equilíbrio entre exigência e tolerância consigo próprio.
Entre a lucidez crítica e a procura constante de harmonia, Jorge Corrula deixa uma visão clara sobre saúde: não como um estado fixo, mas como uma prática diária de atenção, responsabilidade e adaptação. Uma construção contínua, feita de escolhas conscientes, pequenas correções de rota e da coragem de aprender com cada desafio.