Para Tânia Graça a sexualidade não pode ser um tema secundário quando se fala de saúde.
O prazer raramente desaparece de repente. Na maioria das vezes, começa por se retrair em silêncio, empurrado por desconfortos físicos, inseguranças ou pela ideia errada de que a sexualidade é um tema secundário quando se fala de saúde. Para Tânia Graça, psicóloga e sexóloga clínica, este afastamento não é acidental: é o reflexo de uma cultura que insiste em separar o corpo da mente, mesmo quando ambos falam ao mesmo tempo.
Há um momento, conta Tânia Graça, em que o prazer simplesmente deixa de ser possível. Não porque falte desejo, intimidade ou vontade, mas porque o corpo não deixa. «Se estiveres, por exemplo, a passar por uma candidíase, muito dificilmente vais conseguir ter prazer», explica a psicóloga e sexóloga clínica. Quando há dor, desconforto ou desequilíbrio físico, a experiência sexual deixa de ser espontânea e passa a ser condicionada.
E o impacto não fica apenas no corpo. «A forma como vivemos a sexualidade e o prazer que conseguimos retirar das nossas relações sexuais está, de facto, relacionada com ambas», afirma, referindo-se à saúde física e mental. O corpo sente primeiro, mas a mente rapidamente entra na equação.
Na prática clínica, Tânia Graça vê este ciclo repetir-se vezes sem conta. Uma questão física instala-se e, com ela, surgem pensamentos que pesam mais do que deviam. «Há muitas vezes uma insegurança, um “sinto-me esquisita”, “sinto-me suja”». Não corresponde à realidade, sublinha, mas é emocionalmente real para quem a vive. E isso basta para interferir com o prazer.
Porque quando a cabeça está ocupada com a insegurança, o corpo deixa de conseguir relaxar. «Esse foco numa questão física que não te permite relaxar também não te vai permitir aproveitar». É aqui que se torna evidente aquilo que a especialista defende: não faz sentido separar sexualidade de saúde física e saúde mental. «As duas coisas estão envolvidas».
Para Tânia Graça, qualquer abordagem às dificuldades sexuais deve assumir essa integração desde o início. «A abordagem, o tratamento até de questões ligadas à sexualidade e às funções sexuais, deve ter sempre as duas avaliações», explica. Isso implica, muitas vezes, acompanhamento em ginecologia ou urologia e psicologia. E, dependendo da situação, há ainda uma terceira peça essencial.
«A fisioterapia pélvica é uma coisa que eu recomendo muitas vezes também», afirma. Ainda pouco falada fora dos contextos de maternidade, esta especialidade pode ser determinante em várias situações. É o caso do vaginismo, «uma contração do pavimento pélvico e dos músculos da vagina que não permite a relação sexual com penetração». Trata-se de «uma questão comum e que normalmente tem uma mistura de fatores, mas muitas vezes são psicológicos», explica Tânia Graça. A fisioterapia ajuda a devolver controlo muscular e consciência corporal, enquanto o acompanhamento psicológico trabalha o medo, a ansiedade ou experiências anteriores.
Mas o seu papel não se limita ao tratamento. «Também na prevenção», reforça. Ao longo dos anos, e particularmente após a menopausa, «as mulheres vão perdendo tónus muscular, toda a gente na verdade, mas as perdas urinárias são muito comuns». A fisioterapia pélvica pode atuar no pré e no pós-parto, na prevenção da incontinência urinária e na manutenção da funcionalidade do pavimento pélvico.
Mais do que tratar sintomas isolados, esta abordagem permite conhecer melhor o próprio corpo. E esse conhecimento transforma a relação com a sexualidade. Quando há maior consciência corporal, melhor controlo muscular e menos medo associado ao toque ou à penetração, o prazer deixa de ser um acaso e passa a ser uma construção.
No fundo, insiste Tânia Graça, falar de sexualidade é falar de saúde no seu sentido mais completo. «Na verdade, tem as duas componentes, muito importantes», recorda. Não há prazer sem corpo, nem corpo que funcione plenamente se a mente estiver em sofrimento. E enquanto continuarmos a fragmentar esta conversa, continuaremos a tratar apenas partes daquilo que é, inevitavelmente, um todo.
O desafio, defende a sexóloga, é precisamente o contrário: integrar. Porque só quando corpo e mente são ouvidos em conjunto é que o prazer pode voltar a ocupar o lugar que lhe pertence.