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«O sexo é o parque de diversões dos adultos»

Tânia Graça, psicóloga e sexóloga clínica, convida-nos a repensar o que entendemos por saúde, intimidade e bem-estar.

mulher a sorrir, com cabelo encaracolado, sentada, com um casaco rosa choque e uma t-shirt branca

Tânia Graça

Falar de sexualidade é falar de corpo, mente, relações, e Tânia Graça não foge a nenhuma dessas conversas. Psicóloga e sexóloga clínica, tem desafiado silêncios, mitos e desigualdades ao trazer para o espaço público temas como o prazer feminino, a saúde mental e o impacto do desejo na vida em sociedade. Cruzando conhecimento científico com experiência clínica e pensamento crítico, convida-nos a repensar o que entendemos por saúde, intimidade e bem-estar.

 

Que conselhos daria a quem quer ter uma vida sexual saudável?

A primeira coisa que me ocorre dizer é a proteção em relação às infeções sexualmente transmissíveis (IST), porque os números têm aumentado em Portugal e na Europa. Vemos muitos jovens a dizer que o preservativo não é assim tão importante, e isso é um problema real. As IST não são só o vírus da imunodeficiência humana (VIH). Há gonorreia, sífilis, entre outras, e não acontecem só aos outros, nem a determinados grupos. Esse preconceito é muito perigoso. Usar preservativo é fundamental, assim como fazer análises regulares às IST nos exames de rotina. Esta área não pode ficar de fora quando falamos de saúde sexual.

Depois, saúde sexual não é só prevenir o perigo, é também usufruir do prazer. Isso passa pelo autoconhecimento, por perceber bloqueios, inseguranças, traumas, educação de género. Muitas mulheres foram educadas para estar ao serviço do outro; muitos homens foram educados para uma hipersexualização que também os prejudica. O sexo deve ser vivido com dizer que o sexo é o parque de diversões dos adultos, mas para usufruir dele é preciso confiança e a desconstrução de muita coisa que nos foi transmitida.

Há algum mito sobre sexualidade que sinta necessidade urgente de desconstruir?

Sim, um dos principais é a ideia de que a mulher deveria ter orgasmo através da penetração e que, se não tem, há um problema. Isto é fruto de uma construção social. O nosso principal órgão de prazer é o clitóris, que existe única e exclusivamente para dar prazer, e tem cerca de 10.000 terminações nervosas, maioritariamente externas. Mais de 80% das mulheres precisam de estimulação do clitóris para atingir o orgasmo.

Portanto, as mulheres que não têm orgasmo por penetração estão simplesmente dentro da estatística. Precisamos de repensar uma dinâmica sexual muito falocêntrica, em que tudo gira à volta da penetração, ao ponto de chamarmos a tudo o resto “preliminares”, como se fosse algo de acessório.

Falar de sexualidade implica falar de feminismo, relações e desigualdade?

Sem dúvida, porque o sexo e a sexualidade não acontecem no vácuo, mas sim no todo da vida e no contexto social em que vivemos. Muitas vezes, quando uma mulher não tem desejo sexual, individualiza-se o problema: «és tu, o problema é teu». Mas o desejo acontece no todo da vida.

Não dá para separar direitos humanos, educação de género, divisão de tarefas, carga mental, pornografia. Tudo isso influencia a sexualidade. Na minha visão e na minha forma de trabalhar, nunca é só sobre sexo. É sobre tudo.

 Acha que a sua profissão é saudável?

É uma boa pergunta. Eu gosto muito do que faço. Às vezes sinto que me tira alguma saúde, porque trabalho muito e esqueço-me de cuidar de mim, mas não sei se é a profissão ou a intensidade com que a vivo.

É uma profissão saudável porque me faz feliz e sinto que contribuo para melhorar a vida das pessoas. Isso traz-me felicidade – e a felicidade também tem impacto na saúde. Preciso, sim, de abrandar um bocadinho.

O que a inspira a continuar na psicologia e na sexologia?

Ainda é preciso, infelizmente. Sonho com o dia em que nada do que eu digo seja necessário, mas esse dia ainda está longe. O que me inspira é sentir que ajudo as pessoas a serem mais felizes, a conhecerem-se melhor, a terem melhores relações e a reivindicarem direitos, nomeadamente o direito ao prazer. Se um dia isso deixar de ser necessário, fico muito feliz e faço outra coisa.

Costuma fazer check-ups regularmente?

Sim. Tenho feito análises anualmente e acompanhamento ginecológico regular, como citologias e despiste do HPV. Não faço muitos mais exames, mas sou muito atenta aos sinais do corpo. Se há tensão muscular, marco fisioterapia ou osteopatia. Também faço psicoterapia, que considero essencial para a saúde global.

Como é a sua rotina diária?

É muito pouco rotineira. Gosto disso, da novidade. Mas, por ter muitas tarefas, às vezes são quatro ou cinco da tarde e ainda não almocei.

Tenho de me policiar para comer, beber água e parar. Gosto muito de comer, mas quando estou muito envolvida no trabalho esqueço-me. Beber água também é um desafio, porque a água é insubstituível e muitas vezes falho nisso.

O exercício físico, como entra no seu dia a dia?

Faço ginásio pelo menos duas vezes por semana, treino de força, e danço sempre que posso. Gosto muito de forró, que é um ótimo treino de cardio. Treinar com um personal trainer ajuda muito, porque o compromisso com outra pessoa é mais difícil de falhar. Nem sempre apetece, mas nunca se sai do ginásio arrependido.

E a alimentação?

Tenho preocupação em comer de forma saudável, sem obsessões. Tento evitar açúcares, comer mais hortícolas, sopas, fruta, especialmente frutos vermelhos.

Não como carne há muitos anos e peixe só ocasionalmente. Nunca tive problemas de saúde associados e faço acompanhamento nutricional para garantir que está tudo equilibrado.

Que objetivos tem para o futuro?

Gostava muito que o meu livro saísse este ano. Quero viajar mais, investir mais nas minhas relações e continuar o meu trabalho, mas a um ritmo mais saudável. No fundo, tudo isto contribui para a minha felicidade, e para a minha saúde física e mental.