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«O teatro é uma forma de meditação»

Vegetariano, budista, e atento à saúde física e emocional, Heitor Lourenço acredita que o bem-estar é uma prática diária.

Homem sentado com chávena na mão, de calças beges, camisa branca e casaco preto, num cenário de teatro

Heitor Lourenço

Para o ator, o equilíbrio é feito de pequenos rituais: começar o dia a cuidar do cão, “Julinho”; meditar e saborear, com calma, o seu «cafezinho». Vegetariano, budista, e atento à saúde física e emocional, Heitor Lourenço acredita que o bem-estar é uma prática diária, construída entre o palco, a introspeção e o cuidado consciente de si mesmo.

Como são os seus dias?

São muito acelerados, mas eu tento sempre desacelerar um bocadinho. O dia começa com a minha prioridade absoluta: o meu cão, que dorme comigo. Trato dele, das suas necessidades, da comida. Só depois penso em mim.

Faço sempre questão de ter um momento só meu logo pela manhã. Nem que seja alguns minutos de meditação, ainda na cama ou logo depois de me levantar. E há um ritual indispensável: o meu cafezinho da manhã. Até acordo mais cedo para o saborear com calma. É então que leio e vejo o telemóvel. É um tempo em que simplesmente estou. Detesto andar a correr! Já vivi assim e não quero mais.

É claro que nem sempre consigo manter esta rotina. Quando estou a fazer projetos em televisão, entro em estúdio às oito da manhã e saio às oito da noite. Nesses períodos, os horários são muito exigentes. Mas, sempre que posso, preservo estes momentos. São uma conquista da idade.

Com horários tão irregulares, como protege o seu descanso?

O meu maior desafio não é tanto a falta de descanso, mas a falta de regularidade. Posso passar seis meses com horários de televisão e, de seguida, estar no teatro com rotinas completamente diferentes. Às vezes, as duas coisas acumulam-se.

Sempre tive uma relação difícil com o sono, por isso aprendi a discipliná-lo. A chave é estar consciente da hora a que preciso de acordar no dia seguinte e ajustar tudo a partir daí. É um exercício constante de atenção e disciplina.

Tornou-se vegetariano há muitos anos. Como fez essa escolha?

Tornei-me vegetariano em 1995. Inicialmente, foi por razões de saúde. Nos anos 80 começou a falar-se mais de alimentação saudável, e dos excessos da carne industrial e dos alimentos processados. Eu sempre tive essa vontade de procurar uma vida mais saudável.

Mas rapidamente a motivação tornou-se ética. Ao estudar melhor a alimentação, deparei-me com a realidade da indústria agropecuária, e o seu impacto no ambiente e no sofrimento animal. Isso marcou-me profundamente. Percebi que, mesmo não podendo mudar o mundo inteiro, podia mudar os meus hábitos.

Costumo dizer que a pulga não conduz a carruagem, mas pode incomodar o condutor. Tornar-me vegetariano foi o meu pequeno ato de rebeldia.

Foi acompanhado por um médico nessa decisão? E recorre a suplementação?

Sim, tive acompanhamento medico no início. Na altura, quase não havia informação nem produtos vegetarianos disponíveis. Hoje é completamente diferente.

É raríssimo recorrer a suplementação. Tomo vitamina D ocasionalmente, como muitas pessoas. No inverno posso recorrer a própolis ou equinácea, mas nada de especial. Também aqui conto com as farmácias, que estão sempre disponíveis para nos aconselhar. São, de certa forma até, nossas confidentes. Procurei informar-me muito bem. Entrei em contacto com cientistas e especialistas da área, participei em congressos. Fiz questão de estudar seriamente o tema.

O budismo surgiu nessa fase da sua vida?

Foi tudo mais ou menos ao mesmo tempo. Sempre fui uma criança muito ansiosa e questionadora. E questionei-me muito sobre o sentido de estar vivo. Durante a juventude, a morte de uma amiga abalou-me profundamente. Percebi que a vida não segue uma ordem previsível.

Um dia fui ao cinema ver “O Pequeno Buda” e aquilo tocou-me imenso. No dia seguinte fui comprar livros sobre budismo. Não encontrei respostas absolutas, mas sim ferramentas para lidar melhor com as perguntas.

Como é que o budismo o ajuda no dia a dia, numa profissão tão exposta ao ego e ao reconhecimento?

É um exercício diário. A minha profissão vive muito do aplauso, do reconhecimento, do ego. O budismo fala de desapego, e isso é uma luta constante.

A meditação ajuda-me a estar atento. Mesmo quando o ego aparece, se eu estiver consciente, posso travar, ajustar, não alimentar conflitos. Já tive situações de confronto no teatro que poderiam ter escalado, mas consegui parar.

O budismo é como aquele amigo que nos diz: «Olha lá, o que estás a fazer? Acorda.» Dá-me essa lucidez.

Faz exercício físico com regularidade?

Não tenho uma rotina exemplar. Detesto o conceito de ginásio, embora esteja sempre a inscrever-me novamente. Gosto muito de correr e ando bastante. Além disso, sou um ator muito físico; os meus personagens exigem movimento.

Mas reconheço que, aos 58 anos, preciso de exercício estruturado. Os músculos, tendões e ossos precisam de trabalho específico. Aprendi isso com amigos, como a Helena Sacadura Cabral, que, aos 91 anos, faz musculação com uma disciplina admirável.

Que papel tem a cultura no equilíbrio emocional?

A cultura é um bem essencial. É uma ferramenta para pensar, para questionar, para fazer catarse. O teatro nasceu dessa necessidade humana de se compreender a si próprio.

Não é por acaso que os regimes autoritários não valorizam a cultura. Porque dá ferramentas para pensar e escolher. A cultura m, em si mesma, um ato revolucionário.

A espiritualidade tornou-o um ator diferente?

Quero acreditar que sim. A espiritualidade é sempre uma procura, um desbravar de caminhos. E eu acredito que um ator, para ser mais interessante, precisa de ter muita coisa dentro de si: experiências, vivências, leituras, viagens, encontros, inquietações.

Quanto mais voltas dermos àquilo que é o mundo, mais equipados estamos para desempenhar o nosso trabalho. Gosto muito de uma imagem: se estamos numa espécie de “prisão”, que é a condição humana, então mais vale dar a volta à prisão para a conhecer bem. Quanto mais a conhecermos, mais recursos teremos.

A espiritualidade ajuda-me a escavar mais fundo, a perceber melhor o que me rodeia e o que me habita. Dá-me mais matéria-prima interior.

Ir ao teatro é um ato de saúde?

O teatro é muitas vezes visto apenas como entretenimento, mas, na sua origem, foi ritual, cerimónia, ferramenta de desenvolvimento humano. Sempre teve uma função profunda na sociedade.

Há peças que nos fazem refletir, que nos confrontam, que nos ajudam a descobrir respostas que nem sabíamos que procurávamos.

Lembro-me, por exemplo, de fazer teatro de revista e de receber mensagens de pessoas que me diziam: «A minha vida está tão complicada, e durante este tempo eu esqueci-me dos problemas.» Isso é extraordinário. É quase uma forma de meditação.

Quando estamos submersos nos nossos problemas, não conseguimos ganhar distância. O teatro cria um hiato. E nesse espaço a pessoa respira, descansa, olha para a sua vida a partir de fora. Às vezes, é aí que encontra clareza.