Uma ideia costuma acompanhar o sucesso: depois de muitos anos de experiência, tudo se torna mais fácil. Uma conversa com José Figueiras leva-nos a uma outra realidade.
Depois de mais de três décadas de televisão, José Figueiras continua a receber respostas negativas. Continua a apresentar ideias que não avançam, projetos que ficam pelo caminho e propostas que acabam por ser entregues a outras pessoas. A diferença é que deixou de olhar para esses momentos como derrotas. Hoje, encara-os como parte natural da profissão e, acima de tudo, como uma oportunidade para aprender.
«Levamos muitos nãos ao longo da vida», diz com a tranquilidade de quem já fez as pazes com essa palavra. Recorda os castings no início da carreira, quando a rejeição parecia quase uma inevitabilidade, mas garante que ela nunca desapareceu completamente. Ainda hoje acontece apresentar uma ideia com entusiasmo e ouvir simplesmente: “Não é possível”. A sua reação continua a ser a mesma: perguntar porquê. Não por teimosia nem por inconformismo, mas por curiosidade. O apresentador acredita que compreender o contexto ajuda a crescer e, quando isso não acontece, aceita simplesmente que nem tudo depende de si. «Nem todos estamos preparados para fazer tudo», resume.
Num meio onde o ego pode facilmente sobrepor-se à aprendizagem, José Figueiras escolhe continuar disponível para ouvir. Talvez seja precisamente essa disponibilidade que explica a longevidade de uma carreira que atravessa gerações e diversos formatos televisivos sem perder a autenticidade.
A mesma atitude estende-se às críticas. Admite que, no início da carreira, tinha dificuldade em lidar com elas. Algumas eram injustas, outras gratuitas e outras profundamente destrutivas. Como acontece com tantos profissionais, era difícil separar a opinião sobre o trabalho da pessoa que existia para lá das câmaras. O tempo, no entanto, trouxe-lhe outra perspetiva.
A crítica pode ser uma ferramenta de crescimento. Escuta os elogios com gratidão, mas também procura retirar alguma aprendizagem dos comentários menos positivos. Há até momentos, confessa, em que faz um exercício de honestidade consigo próprio e pensa: «Se calhar até tens razão».
Num tempo em que vivemos rodeados de avaliações constantes, esta talvez seja uma das maiores lições que deixa. Não é a ausência de críticas que nos fortalece, nem o facto de deixarmos de ouvir um "não". O verdadeiro crescimento acontece quando percebemos que o nosso valor não depende da aprovação permanente dos outros.
No fundo, o segredo pode estar precisamente aí: em continuar a fazer perguntas, continuar disponível para aprender e nunca permitir que uma resposta negativa dite o resto da história. Porque, por vezes, a maior prova de confiança não está em ter sempre razão. Está em continuar a perguntar "porquê?".