«Se não souber o que é a tristeza, como é que a pessoa representa»?
Miguel Guilherme passou grande parte da vida «metido para dentro» e só agora, já perto dos setenta, aprende a abrir a porta.
Por trás do ator que enche salas de teatro e ecrãs, há mais de quarenta anos, existe um homem que passou grande parte da vida «metido para dentro» e só agora, já perto dos setenta, aprende a abrir a porta. Miguel Guilherme não esconde os fantasmas antigos de uma melancolia que o acompanhou desde jovem, nem o refúgio que sempre encontrou nos livros. Olha para trás, para uma profissão que começou envolta em vergonha e hoje é sonho de milhares, testemunha privilegiada de uma mudança que atravessou o país inteiro.
«Sempre fui uma pessoa um bocado metida para dentro». A frase escapa quase em surdina, como quem confessa algo que levou décadas a admitir em voz alta. «Agora, que estou mais velho, estou a começar a dizer: “espera aí, eu tenho mesmo de aproveitar isto”». A mudança nota-se até no primeiro gesto do dia, o acordar. Antes era peso; hoje é outra coisa. «Acordo e acordo, epá, mais um dia, a sério?” antigamente era “epá, mais um dia...”, era um peso, uma certa tendência para a depressão».
Sem drama, sem pedir compaixão, apenas com a franqueza de quem faz da própria emoção matéria de trabalho. «Nunca tive doença mental. Sempre tive um bocadinho de depressão, mas não é uma depressão clínica. Curiosamente, quando era mais novo, era mais deprimido. Tinha 30 anos. Mas nunca foi uma coisa muito grave. De vez em quando dava-me uns blues, como a toda a gente». E é aqui que a tristeza deixa de ser fraqueza para se tornar ferramenta. «Toda a gente, de vez em quando, tem momentos de tristeza. Se não, como é que a pessoa representa? Se não souber o que é tristeza, ou o que é alegria? A tristeza, insiste, não é anomalia, é condição. Às vezes acontecem-nos coisas que nos fazem ficar mesmo tristes. Não há hipótese. A pessoa não ficar triste é que é estranho», diz. Mesmo assim, para o ator não há margem para dúvidas: «Tive coisas muito chatas na vida e também tive coisas muito boas até agora. O balanço não é negativo, é positivo. E tive muita sorte com a profissão que escolhi. Gostei logo desta profissão».
Há um outro refúgio, esse mais silencioso e mais antigo ainda: os livros. «Leio muito, é uma das coisas que mais adoro. Leio um bocadinho de tudo, muita ficção, muita história». Nesse gosto esconde-se uma vida que quase foi outra. «Andei em Antropologia, depois desisti; depois fui para História, variante de História de Arte, e era o que eu devia ter feito. Mas depois vi que não dava, já estava com a carreira encaminhada e desisti outra vez». O que fica é uma relação com a leitura que recusa qualquer diminutivo. «Não diria um hobby, porque não é. Ler não é um hobby. É um prazer brutal».
Miguel Guilherme tem o olhar de quem viu o próprio ofício mudar de estatuto ao longo de uma vida inteira. Quando começou, no final dos anos 1970, ser ator era quase um segredo. «Naquela altura ainda era muito vergonhoso ser ator. Ou se era 'maricas', gay, ou se era prostituta, basicamente era isto que as pessoas pensavam dos atores. Um pai cujo filho ou filha quisesse ser ator, ou atriz desesperava, ou ficava muito triste, achava que a filha ia ser uma 'patriz'. Cinquenta anos depois, o retrato inverteu-se por completo, e com ele chegou uma nova ameaça: a multidão. «Hoje em dia é uma profissão que pode ser muito atrativa, também para o que os pais gostam, que é os filhos poderem ter uma vida. Agora há muita concorrência, o que significa que há muita gente que começa e não consegue. Diria que 90%, ou 95% das pessoas, não conseguem vingar na profissão». Uma travessia que ele próprio, entre a melancolia que aprendeu a domar e os livros que nunca o abandonaram, conseguiu atravessar inteiro.