O ator Rui Melo acreita que viver da arte é reinventar-se continuamente e aceitar a incerteza como parte do processo.
Viver da arte é reinventar-se continuamente e aceitar a incerteza como parte do processo, acredita Rui Melo. Entre humor, lucidez e honestidade, o ator, músico e encenador propõe uma ideia simples, mas exigente: viver com saúde não para atingir um estado perfeito, mas para aprender a encontrar pequenos momentos de felicidade num mundo que raramente abranda.
Nunca é agradável receber ameaças ou mensagens negativas. A existência de plataformas como as redes sociais veio mudar muito as coisas. As pessoas sentem-se no direito de emitir opinião sobre tudo e sobre nada, e pior ainda, sentem-se no direito de insultar.
As redes sociais podiam ser um sítio maravilhoso para divulgação de ideias, de debate, mas não são, precisamente por isso. Tenho um filho pré-adolescente, que não tem telemóvel, não tem redes sociais, e cada vez mais estou convicto de que vou atrasar esse acesso o máximo que puder.
Ao contrário do que possa parecer, não acho que os artistas tenham a obrigação de ter uma voz pública ao nível político. Entendo que, sempre que possível, o que podemos fazer é tocar com o nosso trabalho em temas mais sensíveis e gerar reflexão. A arte serve, entre outras coisas, para nos pôr a pensar. Se, com o meu trabalho, conseguir pôr 1% da sala a pensar sobre um determinado assunto, para mim já está ganho.
Não só da saúde, como também da educação. A cultura devia fazer parte da agenda do Ministério da Educação. Não enquanto algo separado, mas integrado, porque pode desempenhar um papel muito importante na formação das pessoas, na formulação de ideias, na promoção de empatia, liberdade e responsabilidade social. Tudo isto está ligado e muitas vezes esquecemo-nos disso.
Se também foi sorte? Seguramente, mas aqui entra igualmente a falta de alternativa. Não me imagino a fazer outra coisa. Tenho a honra de trabalhar onde sou muito feliz. Esta coisa de ir para uma sala de ensaios, um palco, um teatro, para mim é trabalho, mas é também uma espécie de recreio. É poder brincar ao faz de conta com os meus colegas. E poder brincar ao faz de conta em adulto é extraordinário, um privilégio.
Quando entra em personagem, consegue separar-se completamente?
Sim. Haverá atores que têm outros métodos, quando saem de cena levam a personagem consigo para casa. Eu não sou assim. Saio de cena, acabo o espetáculo ou a cena que gravei, tiro a roupa e volto a ser eu.
Felizmente, nunca me aconteceu. E também me parece um bocadinho estranho essa ideia de levar a personagem para casa dessa forma extrema. Se de cada vez que represento uma personagem ficasse emocionalmente destruído, não estaria a fazer bem o meu trabalho.
É verdade, isso existe. Mas, nesta profissão, quanto mais depressa aprendermos a lidar com a rejeição e a falta de trabalho, melhor. É também uma questão de saúde mental. Já aceitei há muitos anos que não vou ter trabalho sempre. Há fases em que tenho muito e fases em que tenho pouco. Também já percebi que nunca vou enriquecer no teatro e está tudo bem com isso. Sou feliz quando estou a fazer teatro para 1.200 pessoas ou para cinco. A arte traz-me felicidade.
Gosto que tudo me influencie. Vejo muitos espetáculos de teatro, sobretudo quando estou a encenar. E há uma frase que o Aaron Sorkin (argumentista e realizador norte-americano) diz e de que eu gosto muito: «se a ideia for boa, rouba-se diretamente». E não tenho problema nenhum com isso. Vejo o trabalho de outros encenadores, outros atores, e isso inspira-me muito.
A chegada de uma criança é uma coisa avassaladora, para o bom e para o mau, porque nos muda completamente. Eu era uma pessoa antes do meu filho nascer e passei a ser outra depois. Já fiz as pazes com isso. No início, a minha depressão pós-parto surgiu porque não aceitava que a minha vida tinha mudado. Com a ajuda da terapia, aprendi a aceitar e foi como tirar uma mochila muito pesada das costas.
Foi perceber que a vida deixou de ser sobre mim. Passa a ser sobre aquela pessoa. No início não lidei bem com isso, mas depois, quando aceitei, foi maravilhoso perceber que o nosso coração passa a bater ali, em função dele. Isso é de um altruísmo enorme. Mas o processo de transformação é duro.
Não só continua, como acho que devia ser normalizada, como ir ao médico ou ao ginásio. A terapia devia fazer parte da vida de toda a gente, sem qualquer tipo de estigma associado. Porque estes processos de aceitação, de nós próprios, das mudanças da vida, das fases boas e das menos boas, são muito difíceis de se fazer sozinho. Para mim, a terapia funciona exatamente nesse sentido: é um espaço de clareza, de arrumação mental, de compreensão do que estou a viver em cada momento.
É uma relação boa, não tenho propriamente problemas com o meu corpo. É claro que, como qualquer pessoa, há coisas que gostaríamos que fossem diferentes, como ser mais atlético, mais alto, mas isso nunca representou um conflito comigo. Vivo bem com o que sou. Para mim, o mais importante é conseguir estar confortável no meu corpo, sem grande guerra interna com a imagem que vejo ao espelho ou com aquilo que ele é no dia a dia.
Adoro comer. Não sou uma pessoa especialmente disciplinada nesse aspeto; mas gosto mesmo muito de comer, de experimentar comida, de descobrir sítios novos, com amigos, com a família ou até sozinho. Comer não é só alimentação, é convívio, é partilha. Gosto desse lado mais humano e mais social da comida.
Não, pelo menos de forma rígida. Preciso de alguma rotina durante certos períodos, mas depois também preciso de a quebrar. Necessito dessa alternância e da mudança. Não consigo ficar demasiado tempo no mesmo registo. Preciso de circular entre coisas diferentes para me sentir bem e criativamente ativo.
Para mim, viver com saúde está muito ligado à felicidade. Mas não no sentido de uma felicidade constante ou permanente, porque isso não existe.
A felicidade, na minha experiência, são pequenos momentos que vão acontecendo ao longo do dia, ao longo da vida. São instantes. Pode ser uma conversa, uma situação de trabalho em que tudo corre bem, pode ser estar com o meu filho, fazer teatro, desfrutar de tempo com amigos ou estar simplesmente em paz num dia normal.
O objetivo, se é que podemos chamar-lhe isso, é tentar que esses momentos aconteçam o maior número de vezes possível. Saúde é isso: não é um estado fixo, é a capacidade de ir acumulando pequenos momentos de bem-estar e de felicidade ao longo da vida. E quando isso acontece com alguma frequência, acho que estamos mais próximos de uma vida saudável.