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Dor crónica na mulher

Quebra o silêncio, recupera a qualidade de vida.

mulher com dores nas costas, possivelmente na coluna, de forma crónica, mau-estar em casa

A dor crónica é caracterizada por dor persistente durante mais de três meses, que afeta homens e mulheres de forma distinta. No género feminino, estatisticamente, a prevalência da dor é superior. A explicação reside numa conjugação complexa de fatores. Estudos recentes demonstram que homens e mulheres processam a dor de forma diferente. Do ponto de vista hormonal, as flutuações de estrogénio influenciam o processamento da dor pelo sistema nervoso, tornando a mulher mais suscetível à chamada sensibilização central, ou seja, a um estado de alta reatividade à dor.

No entanto, a biologia não explica tudo. Existe um fardo cultural pesado: a normalização e desvalorização da dor. Embora seja um facto clínico que a ansiedade e a depressão afetam mais as mulheres, tal não pode ser pretexto para invalidar as suas queixas de dor. Quantas vezes ouvimos dizer que a dor é apenas stresse ou psicológica? Esta desvalorização perpetua estigmas e adia diagnósticos. Olhar para a dor feminina como um reflexo da ansiedade resulta em perda de tempo precioso e prolonga o sofrimento.

Além disso, o papel recorrente de cuidadora e a sua intensa sobrecarga diária levam a mulher a colocar-se em último lugar, o que contribui igualmente para atrasar o diagnóstico.

O estigma é particularmente evidente em doenças funcionais como a fibromialgia, que afeta sobretudo o género feminino, e se caracteriza por dor musculosquelética generalizada. As mulheres afetadas enfrentam um triplo desafio: a depressão ou ansiedade, frequentemente coexistente; o peso de uma doença invisível à luz de análises ou exames radiológicos; e o preconceito de quem as rodeia, que questiona a legitimidade do seu sofrimento.

Existem ainda outras formas de dor crónica mais específicas das mulheres, destacando-se a dor pós-cirurgia oncológica da mama e a dor pélvica. Condições ginecológicas, como endometriose, doença inflamatória pélvica, miomas e prolapsos, bem como problemas da bexiga e disfunções do pavimento pélvico, são causas de dor crónica essencialmente femininas.

O diagnóstico nem sempre é fácil e por vezes exige uma série de exames complementares. É frequente a passagem por diversas especialidades, incluindo gastrenterologia, urologia e ginecologia, terminando na medicina da dor.

Felizmente, o panorama do tratamento da dor está a evoluir. Mais do que prescrever medicação, a nossa abordagem é multidisciplinar: medicina, psicologia, fisioterapia e nutrição. Existem procedimentos minimamente invasivos, como infiltrações, bloqueios nervosos e radiofrequência, que atuam na origem anatómica do problema ou alteram a forma como a dor é transmitida. Estes procedimentos bloqueiam os sinais de dor e proporcionam alívio quando as terapêuticas convencionais falham.

 Do ponto de vista clínico, é importante assumir que o objetivo nem sempre é a ausência total de dor, mas sim devolver funcionalidade e qualidade de vida. Através destas intervenções, reduz-se a dor a um nível que permite à mulher regressar ao trabalho, ao lazer e à vida normal, recuperando o controlo.

A resignação não é opção. É inaceitável que a dor crónica limitante continue a ser subvalorizada, tolerada ou confundida com sintomas psicossomáticos. É fundamental que a mulher valorize os seus sintomas, recuse a normalização da dor e procure ajuda especializada. Uma vida plena deve ser um direito de todas as mulheres.