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"Lisboa é movimento, é brutalidade, é solidariedade, é violência"

Miguel Guilherme carrega consigo duas Lisboas, a que o viu crescer e a que hoje o desafia.

Homem sério, de t-shirt preta, entre árvores

Cresceu entre os prédios cinzentos de um bairro erguido pela ditadura para dar casa a quem trabalhava. Décadas depois, caminha pelas mesmas ruas de Lisboa e já não reconhece metade das pastelarias, nem os preços das rendas, nem, por vezes, a própria cidade. Miguel Guilherme carrega consigo duas Lisboas, a que o viu crescer e a que hoje o desafia, e é entre as duas que encontra, ainda assim, o combustível para continuar a criar.

Há cidades que se habitam e cidades que se herdam. Miguel Guilherme pertence à segunda categoria: nasceu e cresceu no bairro dos Olivais, um aglomerado de betão erguido pelo Estado Novo para alojar quem trabalhava, e é dali, dessa contradição entre um regime que temia a liberdade, mas sabia construir casas, que parte toda a sua relação com Lisboa. «Sou uma pessoa de cidade», assume sem hesitação, ainda que reserve um desvio para o mar: «gosto de ir ao campo, mas sou mais uma pessoa de mar».

O bairro onde cresceu é hoje o seu ponto de partida para uma ironia que não larga: «O bairro dos Olivais era um bairro do Estado, feito pelos fascistas, do Estado Novo». Uma ditadura que erguia casas para quem precisava, algo que a Lisboa de hoje, democrática e próspera, parece ter esquecido como fazer. «O problema de Lisboa, nem é tanto o problema de Lisboa, é o problema da habitação em geral. Porque se esqueceram de fazer casas para as pessoas». A frase fica no ar, quase como um veredicto: «Não compreendo como é que não se fazem, se calhar não é preciso fazer uns Olivais gigantescos, mas polos dentro da cidade, com rendas acessíveis».

E há algo que não deixa escapar: o desaparecimento silencioso das pastelarias que sempre pontuaram os seus percursos pela cidade. «A pastelaria portuguesa está a desaparecer. Aqui no Príncipe Real está a desaparecer. E na Baixa, no Chiado, na Avenida de Roma...». Um por um, os lugares que faziam parte da geografia afetiva de Lisboa vão cedendo a outras coisas, e Miguel Guilherme observa a transformação com a serenidade de quem já viu a cidade mudar de pele várias vezes. 

Apesar de tudo não tem com Lisboa uma relação de simples nostalgia. O ator recorda uma Lisboa ainda mais dura do que a atual, a dos anos 80, arruinada, quase abandonada pela Europa, e ainda assim magnética. «Estava destruída, tudo a cair aos pedaços. Já não havia isso na Europa. Havia pessoas que vinham para cá viver e escrever porque era um sítio que já não existia em mais lado nenhum». Nessa memória mora talvez a chave para entender o que o prende, até hoje, a esta cidade e a nenhuma outra: o contraste. «A cidade inspira. É movimento, é brutalidade, é solidariedade, é violência. É tudo isso misturado. No mesmo dia pode acontecer-nos tudo, não é»?

E talvez seja essa mistura, mais do que qualquer decisão consciente, que o mantém ali. «Não sei se me inspira, ou se eu só sei viver assim», admite, antes de fechar o pensamento com a lucidez tranquila de quem já fez as pazes com o tempo que passa, na cidade e em si próprio. «Cada vez sou mais calmo, cada vez gosto mais de... Antes, não me via a ver viver no campo, mas atualmente até seria possível fazer isso».