14 Saúde «O segredo disto tudo foi ter descoberto a força da gratidão» Nas margens da ria de Aveiro, cidade onde cresceu, Luísa vai salgando a conversa. Dá sede. Vontade de saber mais e mais de uma vida que parece sempre nova a cada frase, cada desafio, como naquele dia em que calçou os ténis. «Nunca pensei correr. Não gosto de correr por correr. Quem diria que conseguiria fazer 10 km». É um pé à frente do outro, como na vida. «Quero que os pais de um jovem com Esclerose Múltipla olhem para mim e respirem fundo. Quero que percebam que o filho não está condenado a uma cadeira de rodas». A corrida é só uma boa metáfora. O resto é o dia-a-dia de Luísa, a mulher que quis mudar a cara de doença e acabou a transformar-se, ela própria, numa espécie de cartaz. É missão. Juntou-se a vários grupos de doentes, como o “Gangue da Esclerose Múltipla” e os “Amigos de Aveiro”. Foi neles que encontrou a força para recomeçar e é através deles que quer continuar a dar a mão a quem chega. Não satisfeita, a antiga atleta foi à procura de um emprego onde pudesse colocar a sua experiência ao serviço da sociedade. Chegou a técnica de comunicação na SPEM e concretizou outro sonho: construir uma equipa. «Um senhor teve a ideia de criarmos uma camisola que pudesse servir de inspiração. Foi assim que nasceu a Mágica», explica com a dita encarnada vestida. Hoje, mais de 500 pessoas correm pela causa. Os números são só isso: dos 30 mil quilómetros já acumulados, 1.000 foram corridos por doentes. Mágico! Janeiro de 2016. Luísa tem as malas à porta, aos 38 anos. Está de partida para o aeroporto, rumo à Dinamarca. O barco da esperança que a embalou até Boston foi, afinal, o barco do amor. Quase dois anos depois de cruzar o oceano, Luísa solta as amarras, deixa a ria, o sol, os amigos e a família, e parte para aquele cantinho frio, lá longe, a norte. Diagnóstico: Apaixonada. «– Já sabes o que vais fazer lá? – Ainda não. Bem, sim, sei… vou viver!» •
Revista Saúda N.3
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