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Revista Saúda N.4

14 Saúde /// Heróis Saúda Aprender a legendar o mundo A Síndrome de Asperger ameaçou José Vasconcelos com uma vida de isolamento e ansiedade, mas ele decidiu retaliar. Aos 27 anos, continua a derrubar barreiras em busca da independência. Texto de Pedro Veiga Fotografias de Pedro Loureiro Duas vezes por semana, José Vasconcelos repete o percurso. Sai de casa, em Cascais, e apanha o comboio até Lisboa. Lidar com a multidão foi, desde sempre, um desafio. Tinha crises de ansiedade que frequentemente se agigantavam em ataques de pânico No Cais do Sodré troca a beira-rio pelo subterrâneo, linha azul, até chegar à Casa Grande, em Benfica, uma vivenda amarela esquecida entre os prédios da freguesia onde está instalada a sede da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA). À primeira vista, é apenas um percurso de transporte público, feito e refeito tantas vezes por tanta gente, mas para José é muito mais: é a certeza de que, pelo menos naquele dia, superou um dos muitos obstáculos que a Síndrome de Asperger lhe tenta impor. «Quando soube o que tinha, fiquei um bocado assustado», confessa. «Pensei que era algo muito grave, que era uma doença muito incapacitante. E é, em certos aspectos, mas não tanto como eu estava a pensar». Lidar com a multidão foi, desde sempre, um desafio. As estações de comboio e de metro, sempre tão cheias de gente, de movimento, de ruído, provocavam-lhe crises de ansiedade que, frequentemente, se agigantavam em ataques de pânico. Mesmo quando o número de pessoas em seu redor era mais pequeno, José tinha dificuldades em interagir. «Na primária, os meus colegas queriam jogar futebol e brincar uns com os outros e aquilo deixava-me um bocado a leste». Navegou a adolescência como soube, umas vezes na crista da onda, capaz de se relacionar com os colegas, de lidar com os desafios; outras, arrastado pela rebentação feroz, fechado em casa, incapaz perante as tarefas mais básicas. >


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