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Revista Saúda N.5

16 Saúde C M Y CM MY CY CMY K Tem 48 anos, é funcionária pública, é doente bipolar. Chamemos-lhe Patrícia, que o equilíbrio profissional e pessoal foram árduas conquistas. É que «o estigma ainda é grande», assegura, optando pela prudência na hora de decidir sobre a revelação da sua identidade. Conta que os primeiros sinais de que algo de diferente se passava consigo chegaram quando frequentava o 10.º ano de escolaridade e um episódio de varicela a obrigou a uma paragem de duas semanas. «Estudava num colégio interno muito exigente e quando regressei às aulas percebi que tinham avançado muito na matéria. Fiquei com medo de chumbar e de ter de sair do colégio, onde tinha as minhas amigas». Durante um mês, com a ansiedade ao rubro, foi incapaz de dormir uma única noite inteira. Os ruídos tornaram-se companhia indesejada: «ouvia todos os relógios da minha camarata». Encontrou-se apática, com pensamentos negativos, por vezes suicidas. Consultou um psiquiatra que lhe apontou uma crise nervosa e lhe prescreveu uma medicação que «me deixou zombie: de dia andava cheia de sono, sem conseguir concentrar- -me, e à noite não dormia». Foram os pais que a ajudaram a ultrapassar a situação. Com esforço, passou o ano escolar, e o assunto ficou arrumado no passado, desvalorizado. Estava no terceiro ano da faculdade quando um incidente veio pôr a nu um conjunto de fragilidades que a obrigaram a repescar o tema e a reavaliá-lo. «Andava, por essa altura, numa grande euforia. Parecia que estava sempre sobre o efeito de speeds: queria ir a todas as festas, estava superconfiante, gastava dinheiro de forma desmesurada». Características que aparentavam ser as de uma pessoa «naturalmente alegre», como Patrícia se define; mas eram mais do que isso. Após uma discussão com o então namorado, teve um aparatoso acidente de automóvel. Poucas foram as mazelas físicas, mas o seu comportamento tornou evidente um problema maior: mentiu ao enfermeiro que a socorreu, disse-lhe que estava grávida. Foi uma amiga que a aconselhou a procurar um médico psiquiatra no Porto. Acompanha-a até hoje. > «Andava numa grande euforia. Parecia que estava sempre sobre o efeito de speeds: queria ir a todas as festas, estava superconfiante, gastava dinheiro de forma desmesurada». «O que eu sentia não era alegria. A euforia é uma máscara da tristeza»


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