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Revista Saúda N.5

Saúde 19 Durante um mês, com a ansiedade ao rubro, foi incapaz de dormir uma única noite inteira «Lembro-me de me ter perguntado na primeira consulta: "Está a ver como faz sofrer os seus pais?" Aquilo abriu-me os olhos». Tinha 29 anos quando ficou internada, duas semanas, no Hospital Magalhães Lemos, e foi só então que se apercebeu da verdadeira gravidade da sua doença. A perturbação bipolar, também chamada de doença maníaco- -depressiva, é caracterizada por uma oscilação acentuada do humor entre crises depressivas e crises de mania. No primeiro caso, o doente cai num estado de tristeza e desespero, perdendo a vontade de fazer até as coisas mais banais. No segundo, a auto-estima eleva-se aos píncaros, entra-se num estado de humor elevado, expansivo, eufórico ou irritável. A duração das fases é, ela própria, instável e o diagnóstico médico pode não ser simples, porque a doença é facilmente mal-interpretada. Mas uma vez diagnosticada, o doente inicia um «processo interior muito profundo. Primeiro de aceitação e depois de autoconhecimento, para identificar os sinais e pedir ajuda imediatamente. Deixar arrastar para ver se passa é sempre uma má opção», testemunha Patrícia, para quem «a pessoa tem, em primeiro lugar, de aprender a contar consigo própria». O percurso de Patrícia é feito de mais duas crises e um internamento, altos e baixos de uma vida com um casamento, vários empregos, algumas tentativas para engravidar sem sucesso. Conta que nos piores momentos chegou a rejeitar o marido - «estourei-lhe o dinheiro todo do cartão» - e a criar atritos no trabalho. À medida que relembra as desventuras de uma doença onde nada é o que parece, nota que «o que eu sentia não era alegria. Era euforia. E a euforia é uma máscara da tristeza». Hoje baliza-se muito: cumpre a medicação, tem atenção redobrada às horas de sono, ao dinheiro que gasta e se existe uma excessiva tendência para interpretar tudo. É que «nos piores dias, até as matrículas podem ter um significado oculto. Tudo ganha um segundo sentido. Tornamo-nos muito esotéricos». Recorda os tempos em que se julgava vítima de vudu. Há 13 anos que não sofre uma crise. «Tenho muita sorte com a minha família, com o meu marido, com o meu médico e com as minhas chefias. Sempre foram muito compreensivos», admite, aludindo a casos nos grupos de ajuda mútua que frequenta e que lhe permitem perceber que nem sempre é assim. «Há muita solidão e incompreensão». Por isso, o seu primeiro conselho para quem enfrenta o mesmo problema é ir à ADEB – Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, onde pode encontrar ajuda especializada. «Está provado que é nas pessoas solitárias, sem família, sem apoio no trabalho ou que estejam em processo de divórcio, por exemplo, que a perturbação bipolar tem mais incidência. Quanto mais só uma pessoa se sente, maior é a propensão para ter uma crise, para piorar. Esta é, sem dúvida, uma doença dos afectos». •


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