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Revista Saúda N.5

/// Editorial Curar a dor interior As doenças e perturbações mentais são uma pandemia. Temos de acreditar que é possível vencer o sofrimento desnecessário. Os povos dos países da Europa Ocidental são profunda e maciçamente infelizes. Já não há tanques nem aviões a largar bombas nas principais cidades, mas o ambiente continua a ser muito agressivo para seres humanos. Os estudos clínicos indicam que o stress é responsável, pelo menos, por metade das idas ao médico e tornou-se mais mortal do que o tabaco, como enfatiza o psiquiatra David Servan-Schreiber num best- -seller que lembramos nesta edição. Portugal também não é um paraíso à beira-mar plantado. Dados publicados pela OCDE, no ano passado, indicam que somos o terceiro país do mundo com maior consumo de antidepressivos. Em cada mil portugueses, 88 dependem destes medicamentos, contra 65 na Espanha e apenas 13 no Chile. Na edição de 5 de Março, o Expresso revelou que todos os dias são receitadas 933 embalagens de psicofármacos a crianças e jovens menores de 18 anos. Uma em cada cinco crianças e adolescentes apresenta sinais de perturbação mental. No Hospital Dona Estefânia, de Lisboa, as urgências de pedopsiquiatria cresceram cinco vezes em apenas seis anos. Os europeus que morreram e os europeus que sobreviveram a duas guerras mundiais ficariam surpreendidos se soubessem o que hoje se passa. A Europa Ocidental, pela primeira vez na História, vive em paz há sete décadas. Nós não devíamos saber o que é o inferno, só vemos a guerra pelas notícias. As estatísticas, no entanto, vão fazer parecer aos historiadores do futuro que a guerra está a acontecer agora. Seria tão errado dramatizar estes números como relativizar o seu significado. Carpideiras e avestruzes não aproveitam à saúde pública. Parece evidente que o stress, a depressão e a ansiedade são pandemias com causas plantadas no nosso estilo de vida, da dieta ao sono, do ambiente familiar ao mundo do trabalho. Esta complexidade não pode servir de justificação a qualquer atitude passiva dos profissionais de saúde, decisores políticos e comunidade. Pelo contrário. Podemos fazer muitas coisas, porque há muitas áreas sensíveis ao nosso esforço. Esta edição da Saúda pretende contribuir para o combate urgente a este problema de Saúde Pública. Procurámos as raízes das doenças da mente em campos tão vastos como os erros alimentares, as perturbações do sono e a falta de afectos. Há esperança e saídas terapêuticas, farmacológicas e de outras naturezas. Não nos rendemos, nem à doença nem ao preconceito. Como no tempo de guerra, a nossa obrigação é vencer o sofrimento desnecessário. Como bem sabe a palhaço Teté, nós podemos «transformar o mal-estar em bem-estar».• Sílvia Rodrigues Farmacêutica, directora da Revista Saúda


Revista Saúda N.5
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