38 Boa disposição Lisboa /// Farmacêutico convida voa, voa! Maria da Luz Sequeira passeia pela Baixa, entra no eléctrico 28 e sobe a um helicóptero para mostrar como é boa a vida de Lisboa. Texto de Carlos Enes Fotografias de Pedro Loureiro Não vai há quinhentos anos, o frade António Ribeiro cansou-se de viver em clausura no Convento de S. Francisco, de Évora. Ele já não viu três irmãos franciscanos transformar a camarata onde dormiam na famosa Capela dos Ossos. Meteu pés e mulas ao caminho, cruzou o Tejo de barcaça e só assentou depois de trepar a colina de Santa Catarina, zona fidalga abraçada pela muralha fernandina. Nunca despiu o hábito clerical nem aliviou a corda à cintura. Começou foi a cuspir fininho em voz alta, à fadista. José Cardoso Pires, com escrita de relojoeiro, chamava cuspir fininho ao linguajar desafiador dos lisboetas mais típicos. Frei António foi precursor dessa arte travessa de afiar a língua. Fazia versos satíricos e recitava ao ar livre, imitava vozes e figurões, gozava com costumes e grandezas. Não lhe deu para as mulheres, só para uns tragos de vinho na taberna de um tal Gaspar Dias. Não se sabe ao certo qual deles dava pela alcunha: – Canta para aí, ó Chiado. Parece que respondiam ambos. E foi assim que um taberneiro e um agitador de rimas deram nome ao bairro fino. O terramoto de 1755 e o incêndio de 1988 facilitaram a transição geracional do espaço urbano. As tragédias, afinal, foram colossais dores de parto, obrigando o Chiado a renascer consoante as épocas. Por exemplo, agora: Lisboa vive ocupada por uma nuvem permanente de turistas, não podia conservar no coração um bairro de tertúlias. O Chiado passou a ser uma praça do mundo. As grandes marcas multinacionais, de luxo ou consumo massificado, abriram portas nos antigos armazéns reconstruídos. Os escritores levantaram-se das mesas para se meterem em todo o lado: livrarias, numerosos alfarrabistas, clubes como o Eça de Queiroz e o Grémio Literário. >
Revista Saúda N.6
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